A rotina de um valoroso soldado.
Em Bom Despacho é assim: você nasce filho de um militar ou se casa com um dos seus descendentes. Presto aqui minha homenagem póstuma a meu sogro – Alcino do Espírito Santo, vulgo Zi- Coxinha, todo os militares que engrandeceram a instituição, nosso estado e o país e honraram a farda que vestiram.
A farda tinha que ser impecável, os sapatos lustrados ao máximo, igual a um espelho. Os cabelos sempre cortados, a barba bem-feita. Como a farda subia a cabeça de alguns! Encantavam as mulheres! Arrancavam suspiros! Existia um preconceito disfarçado aos afrodescendentes. As brincadeiras entre os colegas, as pescarias, as confraternizações. Era quase impossível galgar os degraus da carreira, tinha que ser muito estudioso e dedicado, os cursos só eram ministrados em Belo Horizonte, onde o militar/aluno deveria estar destacado, com horários alternados de trabalho, muito cansaço e muita matéria para estudar. A solidão da caserna, a família distante, tornava tudo mais difícil.
O teste de sobrevivência na floresta, testando os seus limites. Os laços de amizade que iam se formando ou se desfazendo entre os colegas. Quando acontecia uma calamidade, um incêndio de grande proporção, uma inundação, também eram convocados e se condoíam com o sofrimento dos irmãos. Meu sogro quis até adotar uma órfã de uma destas tragédias.
A maioria dos militares preferiam ir para os rincões das gerais, lugares ermos, longínquos, como Medeiros, Tapiraí… Onde tinham menos serviço, o salário – “soldo” era baixo e nesses locais as despesas eram menores. Nessas cidades não tinha nem açougue, para comer carne só criando, ou caçando, pescando. Quitanda, só se fizesse em casa. A energia elétrica era fraquinha… Um tomatinho. O médico mais próximo só em Bambuí ou Luz, cidades maiores. Ônibus praticamente não existia, só caminhão leiteiro. Todo soldado tinha um cavalo, os privilegiados, uma bicicleta – ele pedalando, uma criança na cadeirinha, a esposa grávida na garupa e outros filhos no pensamento.
Morando no fundo da cadeia, casa alugada era uma raridade, nestas localidades. Meu sogro morou numa casa cuja frente era um vão, onde montavam circo, parque e no fundo o cemitério. Uns dias viam um fantasma, noutro um elefante, um palhaço, ou uma roda gigante.
O reformado José Libério de Sousa, meu vizinho, sempre narra suas sagas:
“Menino, teve uma vez que recebemos um chamado para socorrer uma senhora, que estava grávida, num rancho, próximo a um ribeirão, lá nos Bodoque. A viatura policial era uma VW Brasília. Quando chegamos à margem, a ponte havia sido levada pela enchente da noite passada e naquele momento chovia torrencialmente. Pensei, analisei, calculei. Tinha que cumprir aquela missão! Pequei um machado, enferrujado e sem corte que ficava no porta mala. Me embrenhei na mata, escolhi duas árvores que ficavam na margem do rio, cortei-as. Quando elas tombaram, construímos uma pinguela, de maneira que a distância de um pau no outro tinha o tamanho do eixo do carro, alinhei o veículo. O colega atravessou a pinguela e não podia olhar para o abismo de uns vinte metros de profundidade e nem para a força da correnteza que nos assustava. Eu no volante, o colega do outro lado sinalizando com uns galhos, os vidros embaçados, as portas abertas para o carro não despencar e a chuva nos encharcando. Rezando sem parar. Por fim terminamos a travessia do ribeirão. Ainda tinha que rodar uns dois quilômetros, por uma picada cheia de lama, o carro patinava, quando chegamos a uma clareira e vimos uma casa de pau a pique, recém queimada, mas ainda saia muita fumaça. Entramos e pegamos uma mulher, o cheiro de carne queimada adentrava em nossas narinas, causava naúseas, sua pele grudava na nossa, foi preciso enrolá-la num cobertor (popularmente conhecido como: “sapeca negrinho”). Colocá-la no automóvel e fazer o trajeto de volta. Teve um momento que o carro parou – entrou água no motor. Tivemos que enxugar as velas. O ribeirão estava mais agitado ainda. A mesma travessia sobre dois paus e o abismo. O alívio de chegar ao hospital, onde entregamos a mulher.
Missão cumprida de um valoroso soldado”.
Esse e outros contos que narra a história do centro-oeste mineiro está no livro: “Bom Despacho 300 anos: Homens que a construíram – Tomo II. Escritor Fernando Humberto de Resende.
Vila Militar de Bom Despacho, MG.
Inauguração do 7º Batalhão de Caçadores Mineiros da Força Pública do Estado de Minas Gerais.
A imagem de capa é o coreto da Vila Militar de Bom Despacho.