HONRA AO MÉRITOPersonalidades

RICK REZENDE

Uma vida feita de música e histórias

Há histórias que começam com grandes planos. Outras começam quase sem que a gente perceba, em uma sala de aula, batucando nas mesas, ou diante de uma bateria vermelha que parece ter sido colocada no caminho exatamente para mostrar a direção.

A história de Rick Rezende nasceu assim: entre sons, encontros, amizade, fé e uma vocação que se revelou ainda na infância.

Nascido em Papagaios, em 26 de dezembro de 1967, filho de Neuza de Souza Rezende e Antônio Eduardo, Rick cresceu em uma família numerosa, de 12 irmãos. Ainda menino, descobriu que a música seria muito mais do que uma brincadeira. Aos seis ou sete anos, já participava da fanfarra da Escola Diogo de Castro, depois que a professora Mercedes percebeu seu talento e sua insistência em transformar mesas e cadeiras em instrumentos.

Mercedes era esposa de Darcio Maciel Ribeiro, o Nenê, proprietário e responsável pela banda de Papagaios, da qual também fazia parte um dos irmãos de Rick. Foi nesse ambiente que o menino começou a se aproximar cada vez mais da música.

Certa vez, durante um forró da escola, seu irmão, que tocava bateria, havia bebido demais e não tinha condições de tocar. Um amigo, José Henrique, chamou Rick às pressas. O problema era simples: Rick nunca havia sentado diante de uma bateria profissional.

Sentou.

E tocou.

Além de surpreender quem estava ali, recebeu seu primeiro cachê. Aquele momento abriu outra porta. Rick se aproximou ainda mais de Nenê e de sua família e passou a frequentar a casa deles, onde viveu parte importante da infância. Ele guarda com carinho a convivência com os filhos de Mercedes e Nenê — Ieda, Yara, Yuri, Isabel e Igor — a quem chama, com humor e afeto, de seus “irmãos brancos”.

Era uma casa grande, cheia de gente, animais, música e convivência. Um lugar que Rick recorda como um dos períodos mais felizes de sua infância.

A bateria vermelha e a chegada a Lagoa da Prata

Em 1986, ainda muito jovem, Rick teve o primeiro contato com Lagoa da Prata. Tinha aproximadamente 16 ou 17 anos e chegou à cidade acompanhado de uma excursão organizada por sua irmã. Naquele momento, sua banda em Papagaios havia acabado de realizar o último baile e ele não pretendia abandonar sua cidade.

Mas a vida parecia preparar outro caminho.

Na primeira vez que chegou a Lagoa, por volta das sete da manhã, a praia ainda estava fechada. Rick olhou por uma janela do antigo restaurante e viu uma bateria vermelha.

Aquela bateria chamou sua atenção imediatamente.

Era exatamente como uma bateria que ele dizia já ter visto muitas vezes em seus sonhos. Para Rick, aquilo não foi simplesmente uma coincidência. Foi “coisa divina, coisa de Deus”.

Ele esperou o local abrir, ficou admirando o instrumento, foi nadar e voltou mais tarde para assistir à apresentação de Ari e Pacão. Pediu para tocar, mas não conseguiu. Voltou para Papagaios triste.

Pouco depois, teve uma nova oportunidade.

Em outra excursão de sua irmã, voltou a Lagoa da Prata. Dessa vez, os músicos estavam tocando e a bateria estava livre. Rick pediu para participar e recebeu a oportunidade de tocar durante toda a tarde.

Foi sua estreia.

Entre as lembranças daquele dia está a primeira música que cantou, “Coração de Estudante”, associada por ele ao período da morte de Tancredo Neves.

Depois da apresentação, Ari lhe fez um convite que mudaria sua vida: precisava de um baterista e queria saber se Rick gostaria de vir morar em Lagoa da Prata.

Rick respondeu que sim.

Mas havia um detalhe: ele não tinha dinheiro para a passagem.

Foi então que entrou em cena Maria, sua irmã, que lhe emprestou o dinheiro necessário para que pudesse voltar à cidade na quarta-feira seguinte.

Um gesto simples, talvez, mas decisivo.

Com o dinheiro emprestado por Maria, Rick conseguiu retornar a Lagoa da Prata. E aquele retorno marcou o início de uma trajetória que se estenderia por décadas.

Ari comprou novos equipamentos e começou uma nova formação, com Rick, Valtair, Claudinho e Sr. Reis. Depois vieram outras experiências, outras bandas e outros encontros.

Entre eles, Zezé, que se tornaria seu grande parceiro musical.

Rick e Zezé: quase quatro décadas de música

Rick e Zezé construíram uma parceria que atravessaria quase 40 anos.

Depois de uma passagem pela Brunella 2, os dois voltaram a tocar na praia, em uma formação que também reunia Nii e Voltair. Mais tarde, com mudanças no grupo, Rick e Zezé permaneceram juntos, construindo uma história que se confundiria com a própria história musical de Lagoa da Prata.

Zezé passou do baixo para a guitarra. Rick permaneceu na bateria.

Vieram os bailes, as noites, os palcos e o conhecido Vagalume, que marcou uma geração e se tornou um dos lugares importantes dessa trajetória.

Naquele tempo, o cenário era muito diferente. Havia ruas ainda sem asfalto ou pavimentação, e Rick muitas vezes seguia a pé, carregando seu instrumento, para chegar aos lugares onde iria tocar.

Era trabalho. Era estrada. Era música.

E era também a construção de uma vida.

Tatau: um encontro que mudou caminhos

Entre as pessoas que Rick encontrou nessa caminhada, há um nome que ocupa um lugar muito especial em sua memória: Tatau.

Ari precisava de alguém para cuidar da montagem do som e foi assim que Rick conheceu aquele que descreve como um homem visionário, alguém que enxergava possibilidades antes dos outros.

A amizade nasceu em torno da música.

Tatau também trabalhava com gravações, e Rick passou a frequentar seu espaço para registrar fitas. Aos poucos, tornaram-se grandes amigos.

Em determinado momento, Rick e Zezé precisavam de equipamentos. Durante uma viagem a Divinópolis, encontraram um cabeçote à venda, mas Rick não tinha dinheiro para comprá-lo.

Foi então que Tatau tomou uma atitude que Rick jamais esqueceu.

Disse que compraria.

Usou seu próprio cheque para viabilizar a aquisição e combinou que Rick poderia pagar depois, aos poucos.

Aquele gesto de confiança foi muito maior do que a compra de um equipamento. A partir daquele cabeçote, Rick e Zezé construíram parte importante da estrutura que sustentaria sua trajetória profissional.

Por isso, quando fala de Tatau, Rick não fala apenas de um parceiro de trabalho. Fala de amizade, confiança e gratidão.

Ao lado de nomes como Gilfar, Tatau está entre as pessoas cuja amizade mais o emociona. Para Rick, são presentes que Deus colocou em seu caminho.

Uma história que atravessou gerações

Ao longo de décadas, Rick esteve presente em casamentos, aniversários, festas de 15 anos, bailes, celebrações de Natal e tantos outros momentos.

Sua música acompanhou famílias inteiras.

Muitas vezes, aqueles que o contrataram quando jovens voltaram anos depois para apresentar seus filhos — e, mais tarde, seus netos.

Foi assim que sua trajetória deixou de ser apenas profissional e passou a fazer parte da memória afetiva de uma comunidade.

Rick também viveu um período marcante dos showmícios, quando esse tipo de apresentação era permitido, trabalhando profissionalmente em campanhas e percorrendo dezenas de cidades. Foram anos intensos de estrada, palcos e encontros que ajudaram a ampliar ainda mais sua experiência musical.

Ele também guarda como parte de sua história alguns pioneirismos, como apresentações na Praça de Eventos e o uso de equipamentos que representavam novidades para a época.

Mas, apesar de tudo o que conquistou, Rick diz que nunca teve vaidade com reconhecimento.

Um novo caminho

Em 2021, durante a pandemia, Rick passou seis dias internado. Foi um período de reflexão profunda.

No hospital, decidiu que, se saísse dali, faria algumas mudanças em sua vida.

Entre elas, estava a decisão de seguir profissionalmente por outro caminho e encerrar sua parceria com Zezé.

Depois surgiu Janete.

Uma nova formação começou, e Rick atribui essa mudança também à vontade de Deus. A música continuou, agora em uma nova fase.

Para ele, a história musical de Lagoa da Prata passou por diferentes gerações: primeiro, por aqueles que abriram os caminhos; depois, por Rick e Zezé; mais tarde, por Rick; e, agora, por Rick e Janete.

São décadas de música que se entrelaçam com a memória da cidade.

O homem por trás do palco

Fora dos palcos, Rick é reservado, observador e pensativo. Ele mesmo diz que calcula muito as coisas e prefere observar antes de agir.

No palco, porém, transforma-se.

Ri, pula, canta, brinca e entrega ao público uma energia completamente diferente daquela que demonstra no cotidiano.

É também um homem de muitos interesses. Gosta de futebol — é atleticano —, gosta de mexer com equipamentos de som, ônibus e Kombis e se dedica à fabricação de instrumentos de percussão, atividade que revela outro lado de sua relação com a música.

Rick não se considera apenas músico. A música é parte de quem ele é.

Família: o patrimônio que permanece

Pai de Paula, Luide, Sofia e Paulo Otávio, Rick fala da família como seu maior patrimônio.

Também guarda gratidão por Simone, que teve papel importante na criação de Paula e Luiz, e reconhece a presença de Adriana, que hoje também o aconselha e o apoia.

Os netos ampliaram ainda mais esse sentimento: Davi, Rafael e Pedro, filhos de Paula, e João Marcos e Henrique, filhos de Luiz.

Quando pensa no legado que deseja deixar, Rick não fala em patrimônio financeiro ou fama.

Fala em honestidade.

Em ser uma pessoa correta.

Em ensinar aos filhos e netos que é possível trabalhar, estudar, acreditar em Deus e seguir a vida sem desejar o mal a ninguém.

Fé, gratidão e histórias

Rick é católico e diz não ser um homem de frequentar muito a igreja, mas sua fé está presente em praticamente todas as lembranças que conta.

Para ele, Deus é soberano.

Foi Deus quem colocou pessoas importantes em seu caminho. Foi Deus quem abriu portas. Foi Deus quem o trouxe a Lagoa da Prata.

E foi também Deus quem, segundo ele, o sustentou nos momentos em que pensou em desistir.

Rick admite que já teve vontade de abandonar a música por causa de pessoas que não lhe fizeram bem. Mas encontrou força em uma filosofia simples:

“Se você plantar flor, você vai colher flor; se você plantar abacate, você não vai colher melancia.”

Ele prefere seguir plantando aquilo em que acredita.

Lagoa da Prata

Há lugares que se tornam endereço.

Outros se tornam parte da identidade.

Para Rick, Lagoa da Prata é isso.

É o lugar onde chegou ainda menino, onde encontrou sua profissão, seus amigos, seus grandes parceiros, sua história e uma parte essencial de quem se tornou.

Quando perguntado sobre o significado da cidade em sua vida, sua resposta é definitiva:

“Se não fosse Lagoa da Prata, não teria vivido essa história maravilhosa. Não teria o Rick.”

Talvez por isso seu conceito de sucesso seja tão diferente.

Para ele, sucesso é chegar a um lugar e ser recebido com carinho. É ser respeitado. É encontrar pessoas que o abraçam. É perceber que crianças gostam de seu trabalho. É ser reconhecido, antes de tudo, como pessoa.

O legado

Se pudesse voltar no tempo e conversar com aquele jovem que chegou a Lagoa da Prata cheio de sonhos, Rick diria para ele ter sido um pouco mais corajoso.

Mas também reconhece que a cautela o ajudou a não ultrapassar determinados limites.

Quando olha para trás, não demonstra arrependimento.

Diz apenas:

“Valeu a pena.”

E talvez seja essa a síntese mais bonita de sua trajetória.

Uma vida construída entre baquetas e microfones, palcos e estradas, amigos e família, fé e trabalho. Uma história na qual pequenos gestos — como o dinheiro emprestado pela irmã Maria para uma passagem — acabaram abrindo grandes caminhos.

No fim, quando perguntado sobre o que é a vida, Rick encontra uma resposta que parece resumir tudo o que viveu:

“A vida é você criar histórias.”

E Rick criou muitas.

Criou histórias com sua música, com seus amigos, com sua família e com as pessoas que encontrou pelo caminho.

Histórias que atravessaram gerações.

Histórias que ajudaram a construir a memória musical de Lagoa da Prata.

E histórias que, agora, seguem sendo contadas.

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Consultor de Marketing digital. Design gráfico.